Desertificação e El Niño: o que está por vir e o silêncio do Congresso brasileiro
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Hoje é o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, data instituída pela ONU em 1994 para lembrar ao mundo que a degradação das terras não é um fenômeno distante ou abstrato. É um processo em curso e que acelera a cada ano.
Neste ano, a data ganha uma urgência adicional: a confirmação oficial, pela NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), do retorno do El Niño, com 60% de chance de atingir forte intensidade ainda em 2026.
Para o Nordeste brasileiro, essa previsão climática é um sinal de alarme para uma região que já convive há décadas com o avanço silencioso do deserto.
O que é desertificação e por que isso é importante para o Brasil
Desertificação é a degradação progressiva das terras em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultado da combinação entre ação humana inadequada e condições climáticas extremas.
O Brasil possui a maior área semiárida do mundo com alta concentração populacional, e é justamente aí que o processo avança com mais força. Dados do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS/UFAL) mostram que 12,85% do semiárido brasileiro já está em processo de desertificação.
O quadro se agrava quando olhamos para estados específicos: Alagoas tem 32,8% de seu território total em processo de desertificação. No Ceará, todos os 184 municípios são afetados pelo fenômeno. No Rio Grande do Norte, Paraíba e Piauí, a extensão afetada ultrapassa 90% dos seus territórios, segundo dados da Embrapa.
Um boletim produzido pelo Instituto Nacional do Semiárido (INSA), Observatório da Caatinga (OCA), Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional aponta que, entre 2000 e 2020, o território suscetível à desertificação se expandiu em 170 mil km². Dados do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) revelam ainda que oito municípios no norte da Bahia e no sul de Pernambuco já apresentam clima árido, não mais semiárido. São aproximadamente 6 mil km² que cruzaram uma fronteira climático sem volta.
As pessoas afetadas diretamente por esse processo chegam a 39 milhões, segundo estimativas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática e do Boletim Desertificação. Entre elas: mais de 1,7 milhão de estabelecimentos da agricultura familiar, 42 povos indígenas e centenas de comunidades quilombolas.
A chegada do El Niño
Se a desertificação já era uma emergência antes, 2026 inaugura um novo nível de risco.
A NOAA confirmou o retorno do El Niño ao Oceano Pacífico equatorial, com a temperatura da região já 0,7°C acima da média histórica. As projeções são preocupantes: segundo o Instituto de Meteorologia (INMET), a probabilidade de ocorrência do El Niño ultrapassa 60% entre maio e julho de 2026, podendo chegar a mais de 90% entre agosto e o final do ano. Há estimativas de 63% de chance de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Para o Nordeste, o padrão histórico é claro: o El Niño reduz os volumes de chuva na região, favorecendo estiagens mais severas e prolongadas. Segundo nota técnica conjunta do INPE, INMET, Funceme e Censipam, "observa-se tendência de redução das chuvas na Região Norte, especialmente entre os meses de junho e março, e no norte da Região Nordeste, entre abril e junho".
A história documenta o impacto com precisão: durante o El Niño de 1982-1983, um dos mais intensos do século XX, cerca de 1.328 municípios foram afetados pela seca no Nordeste, e os preços agrícolas subiram cerca de 40%, atingindo aproximadamente 29 milhões de pessoas.
Pesquisas da UFRN apontam que a relação entre o El Niño e redução de chuvas no semiárido nordestino é um dos fenômenos mais documentados da climatologia regional brasileira.
O aquecimento global amplifica esse quadro de forma decisiva.A tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul em abril de 2024, por exemplo, ocorreu quando o El Niño já estava em fase de enfraquecimento, o que demonstra que os extremos climáticos não dependem mais do pico do fenômeno para se manifestar com força destruidora.
As projeções acadêmicas confirmam essa trajetória: um estudo publicado na Revista Brasileira de Geografia Física (UFPE) indica que as mudanças climáticas provavelmente aumentarão as áreas de alta suscetibilidade à desertificação no Nordeste, com expansão do clima árido sobre o semiárido atual.
O vácuo que o Congresso não quer ver
O Congresso brasileiro segue sem qualquer projeto estruturante voltado à adaptação climática do semiárido. Nenhuma política nacional de combate à desertificação com financiamento robusto e metas vinculantes. Nenhuma legislação que integre os dados do Cemaden, do INSA e do INPE em uma resposta coordenada de proteção às populações em risco. Nenhum marco regulatório que obrigue estados e municípios a incorporar o risco de desertificação em seus planos de desenvolvimento.
O que existe são iniciativas esparsas: a Sudene tem o Plano Regional de Desenvolvimento do Nordeste (PRDNE) 2024-2027 com ações de recuperação de ecossistemas. No entanto, monitoramento sem resposta legislativa é diagnóstico sem tratamento.
Enquanto isso, mais de 8,5 milhões de pessoas vivem em áreas de risco no Brasil. E são as populações mais vulneráveis, como sempre, que mais sentirão na pele os efeitos do El Niño e de toda a crise climática, cada vez mais intensos.
Por tudo isso, são urgentes políticas públicas de adaptação ao semiárido, financiamento para a convivência com a seca e um Congresso que encare com prioridade a emergência climática. A sobrevivência de milhões de brasileiros depende disso.
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Fontes: NOAA, INMET, INPE, Cemaden, Embrapa, LAPIS/UFAL, INSA, Sudene, UNCCD, CNN Brasil, Jornal da Unesp, Gazeta do Povo, Instituto Água e Saneamento, Nota Técnica Conjunta INPE/INMET/Funceme/Censipam (2026), Boletim Desertificação INSA/OCA/UFCG/Sudene/MIDR, Bezerra (2023) — UFRN.



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