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Quem está lucrando com a insegurança das meninas?

  • há 14 horas
  • 3 min de leitura

O avanço da indústria da beleza sobre crianças e adolescentes exige um debate que vai além das escolhas individuais: é hora de discutir limites, responsabilidade e proteção

Uma reportagem recente da Folha de S.Paulo chamou atenção para um fenômeno que vem crescendo nas redes sociais: a “cosmeticorexia”, termo usado para descrever a obsessão de meninas, cada vez mais jovens, por rotinas de skincare, maquiagens e procedimentos estéticos. 

O que pode parecer apenas uma “tendência” inocente, revela, na verdade, um problema muito maior: a transformação da infância em um “negócio” altamente lucrativo para a indústria da beleza.

Não é difícil encontrar perfis infantis nas redes sociais (às vezes até administrado pelos responsáveis legais dessas crianças) reproduzindo rotinas intensas de cuidados com a pele e exibindo coleções de cosméticos. Isso se torna ainda mais complicado pelo fato desses procedimentos serem diretamente associados à autoestima, pertencimento e aceitação social.

Não se trata de uma escolha individual feita em um ambiente neutro. Estamos falando de um mercado bilionário que investe pesado em publicidade, influenciadores e estratégias de engajamento voltadas a um público cada vez mais jovem. Um público que, importante ressaltar, está em uma fase de formação e, portanto, vulnerável a qualquer tipo de influência.

Especialistas alertam que a exposição precoce a padrões estéticos e o uso frequente de cosméticos podem contribuir para uma relação distorcida com a própria imagem, além de reforçar inseguranças e pressões que deveriam estar longe da infância. Quando uma menina de oito, nove ou dez anos passa a acreditar que precisa corrigir imperfeições que sequer existem, estamos falhando como sociedade.

Durante muito tempo, o debate público tratou esse tema como uma questão privada, restrita às escolhas individuais de famílias ou, mais equivocadamente ainda, das próprias crianças (!!!). Mas a verdade é que quando interesses econômicos poderosos entram em cena, a responsabilidade não pode recair apenas sobre pais e responsáveis. O poder público precisa entrar em cena.

Foi assim com a publicidade infantil. Foi assim com as apostas online. Está sendo assim com a implementação do ECA Digital, aprovado recentemente. E precisa ser assim também com a indústria da beleza voltada às crianças.

Por isso, em São Paulo, apresentei o projeto de lei nº 885/2025, que propõe, citando exatamente o texto, “restringir a produção, distribuição e comercialização de produtos de maquiagem, cosméticos e cuidados com a pele destinados ao público infantil”. A proposta parte de um princípio simples, mas para alguns não tão óbvio: crianças não podem ser consideradas como consumidoras em miniatura. 

Importante dizer: regular não significa demonizar a indústria da beleza nem impedir que adolescentes tenham acesso a produtos adequados para sua faixa etária. Significa reconhecer que existem limites éticos quando o alvo do marketing são crianças e adolescentes. É entender que nem tudo o que é lucrativo é necessariamente saudável para o desenvolvimento infantil.

A mesma sociedade que, cada vez mais, está caminhando para entender a importância de proteger crianças do excesso de telas - a aceitação da nossa lei que restringe o uso de celulares nas escolas demonstra isso - precisa estar disposta a enfrentar essa nova fronteira da exploração comercial da infância.

Porque a pergunta que devemos fazer não é apenas por que tantas meninas estão obcecadas por skincare. A pergunta mais importante é: por que estamos permitindo que interesses comerciais ocupem um espaço, cada vez maior, na construção da autoestima e da identidade das nossas crianças?

Se queremos crianças mais livres, mais seguras e mais felizes, precisamos estabelecer limites claros para quem transforma vulnerabilidade em oportunidade de negócio. Porque cuidar da infância também significa garantir que ela seja vivida como infância, não como um produto a ser explorado.


 
 
 

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